Quanto mais o tempo passa e a memória me prega peças, mais desconfio que viver é perigoso.Ando sem saber se falo o que penso, se penso demais, se me calo diante do que me incomoda, se deixo que o tempo se encarregue de mostrar sua verdade.
Porque nem sempre a verdade é nossa. O tempo é dono dela. O que foi importante pra mim aos 18 anos, (por ex.), não é mais importante agora. O tempo cuidou de dar leveza aos meus sofrimentos juvenis e me mostrou que a realidade é relativa. Depende de como vivemos. Depende do peso que damos ao que queremos, ou pensamos, ou fazemos.
O que se foi, baubau! Não volta mesmo e olha que bom! Muitas vezes fugimos de algo ruim e temos "sorte" de conseguir. Outras vezes caimos sempre nas mesmas armadilhas do destino e não aprendemos.
Viver é muito perigoso.
Temos que ter cuidado para não ser feliz demais. Porque a felicidade acaba!
Não podemos mostrar alegria demais. Alegria demais incomoda às pessoas a sua volta. Pode reparar...
Vida certinha, com tudo dentro de um compasso bem estabelecido, coisa mais mentirosa! Ninguém pode ser feliz o tempo todo. Tem muita gente para atrapalhar.
Viver é perigoso, sim.
Mas é para os fortes, para os que não se abatem facilmente. Para os que se levantam da cama mesmo com a perspectiva de um dia igualzinho ao outro, com sua rotina massacrante, com suas horas contadas, milimetricamente, sem deixar escapar nada, senão tem alguém pra criticar.
Ou a gente mesmo cobrar. Não podemos falhar em nada. Somos super-heróis, para o que der e vier.
Se a melancolia insiste em fazer parte de mim, se a angústia do incerto amanhã não se desgruda, se a alegria é empanada pela saudade, isso é problema meu. Eu que me vire com minhas inseguranças, com meus medos, com minhas não-aceitações do que não pode ser mudado. Não porque não possa, mas porque não está em minhas mãos.
Tanta coisa passa pela minha cabeça altamente pensante e escassamente "lembrante", que fico me perguntando se a vida é mesmo assim: viver de esperança, perseguir um objetivo, pensar como as "Griseldas" da vida, que o dinheiro é solução pra tudo.
Apostar que a vida só é boa com muita grana pra gastar. Acreditar que o dinheiro resolverá todos os nossos problemas.
Olhar no espelho e ver que ficamos velhos, talvez sem atrativo algum, pois a amargura tira-nos a beleza, mas acreditando que o dinheiro vai resolver essa parada, que tudo podemos com ele no bolso.
E, o pior de tudo, rezando a Deus e Nossa Senhora para que o bilhete seja o premiado.
Como se Eles pudessem atender a uma trabalhadora forte e saudável, com casa própria e filhos encaminhados, e dar um sonoro "não" pro Zé Ninguém que cata umas moedinhas e faz um jogo, pensando que se ganhar pode ir embora de debaixo do viaduto e levar a mulher, 4 filhos e 2 cachorros pra viver uma vida dignazinha.
O dia em que o dinheiro revolucionar sua vida a ponto de achar que é a solução para todos os problemas, tá na hora de desligar a TV e olhar mais para dentro de si.
Viver bem independe de ser rico ou pobre, com grana ou sem grana. Porque, também, riqueza ou pobreza não tem nada a ver com dinheiro.
O tempo se encarregou de me tornar "filósofa". Filosofia barata, mas é a tal da "minha" verdade. Que o tempo cuida de apurar.
Viver continua sendo perigoso. Com ou sem dinheiro.
Lúcia Soares é uma das escritoras do blog: Em QuantosAtenção: É expressamente proibido a cópia deste texto e imagens sem a autorização prévia do autor.