quarta-feira, 6 de abril de 2011

Nascimento X Exportacao

Minha convidada de hoje é a Gisley do blog Querido Deus, obrigada por me Exportar. Ela vive na Flórida e vai falar em como ela viveu a sua adaptacao e eu me identifiquei demais com o que ela descreveu e acredito que passamos por isso, mesmo nao tendo trocado de país. Vao lendo e depois comentem.
Falar de nascimento é falar da gênese.Do começo de tudo.Do momento entre aquele lugar quentinho conhecido como o ventre da mãe e à vinda ao mundo "frio". Na fase que estou vivendo agora, quando eu penso em nascimento, eu penso em adaptação no exterior. Por que? Por que a expatriação pra mim é como um parto.Saímos do nosso conforto, do nosso lugar quentinho, aconchegante, protegido, recebendo todos os nutrientes, mimos...Do lado de dentro(leia-se no nosso país) somos especiais, o centro das atenções.Tudo que fazemos é engraçado, divertido e cativante.
E nessa transição entre a deixada do ventre e as mãos do médico há um momento de ruptura.Um momento de desapego.Momento esse que é difícil de aceitar.Emoções que nunca sentimos antes começam a aparecer e a gente se pergunta de onde elas vem.Assim como uma criança, a gente leva um "tapinha na bunda" pra chorar.Porque chorar também é vida.É parte desse processo, desse aprendizado.
E daí não apenas nasce a imersão de um ser em uma nova cultura, mas nasce também um novo indíviduo que absorverá novos valores, novas regras, novas leis, novas formações de opinião, novos sabores, novos lugares, novos costumes, novas frustrações, novos desafios.
Uma vez alguém me disse que nada muda mais você do que morar fora do país. E quer saber? Essa pessoa estava certa.Para poder se adaptar você precisa nascer de novo.Precisa estar disposto a aprender de novo.Precisa engatinhar, cair, se levantar, chorar,colocar dedo na tomada (leia-se pagar mico) , lidar com as restrições, com as diferenças,com o não da sua nova pátria mãe e com a diferença [ e às vezes a indiferença] dos teus "novos irmãos"[povo nativo daquele país].
Muitos brasileiros sofrem durante a adaptação e não tiram o melhor do seu "nascimento" porque ficaram estagnados na sala do parto.Ainda estão a chorar...Ficam a comparar o ventre materno com o berçário do hospital. Estão a se perguntar " porque esse lugar não é quentinho e seguro? Porque ninguém me dá tudo na mão e porque eu não sou mais o centro das atenções?" A resposta crua do médico seria a seguinte : PORQUE VOCÊ NASCEU, O QUE SIGNIFICA QUE A VIDA SEGUE. O NASCIMENTO É UM CAMINHO SEM VOLTA.

[ Pausa pro choro...]
[Se quiser chorar, pode pausar também... ]
Aceitar que a vida segue de maneira diferente nem sempre é fácil, mas é necessário. Nós exportados tivemos, temos e teremos momentos de constante nascimento.É um conhecer, aprender ,tornar comum e se desapegar para receber algo novo e inusitado.
E nesse processo, "haja parto" e muita paciência! Mas quer saber? Nada se compara a se descobrir e redescobrir diariamente.Você achava que já se conhecia só pra vir pra terra dos outros e vê o quanto tem que aprender sobre si, o quanto coisas que antes nunca fizeram tua praia agora fazem, enquanto outras já não são tão relevantes assim e o que tens por "conhecido" agora é estranho.
Nada muda mais uma pessoa do que ir morar em um outro país...
Nada muda mais um país do que ter grande concentração de imigrantes nele.
No final, o nascimento é dinâmico, pois acontece com ambas as partes.

E você? O que precisa se desapegar para que teu "nascimento"mundo à fora flua da melhor maneira possível?
Esse post é dedicado à todos os exportados que estão de uma maneira ou lidando com vários nascimentos dentro de si.

Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
( LuLu Santos)


Atenção: É expressamente proibido a cópia deste texto e imagens sem a autorização prévia do autor.

8 comentários:

✿ chica disse...

Muito forte a capacidade de expressar o que sentimos quando estamos morando fora daqui.

Brilhante.

Um parto dolorido,mas tem que haver o nascimento.

E o estranho é na hora de voltar e ver que por aqui as coisas e pessoas continuam iguais, marcando passo, falando das mesmas coisas, parece sem crescer. Dá uma grande mexida em nós verificar isso.

Lindo post!

beijos às duas,chica

José Sousa disse...

Olá amiga!
Aqui vim lhe ler e encontrei um belo texto.

Vá até meu espaço:

transpondo-barreiras.blogspot.com

Fiaca com Deus...
Um beijão.

Turquezza disse...

Gostei demais deste post, é verdade verdadeira! Senti lá no fundo o que meu filho passou quando foi morar fora ( uns 6 anos atrás). Hoje está mais realizado, mais feliz e nós aqui também, por ele.
Estou me preparando para daqui uns anos para seguir também, gosto e quero mudar, a vida não pode ficar estagnada, temos que curtir ainda muitas coisas, boas ou não, e procurar melhorar sempre. E ser feliz sempre.
Obrigada por este momento de reflexão.
Beijos.

Lúcia Soares disse...

Viver fora da pátria não deve mesmo ser fácil. Um parto diário, em dúvida.
Não teria coragem, sinceramente. Nem que as circunstâncias fossem obrigatórias.
Sou presa a esta terra, pátria amada, Brasil, e nada me tiraria daqui.
O texto está lindo, fazendo analogia ao nascimento real.
Beijo!

shan-Tinha disse...

oi gatinha!
primeiro: tenha certeza que você está exatamente onde deveria estar;
segundo: sempre queremos o que não temos, viajar então, olhamos fotos ou lemos sobre pessoas que foram pra algum lugar e ah, como queríamos estar no lugar dela...
terceiro: nunca damos o valor devido ao que temos, ao que somos e a quem está conosco;
quarto: imagine como seria se não existisse um outro lugar para viver ou não pudéssemos experienciar isso; imagine também a mudança (positiva) de certas pessoas de um lugar para outro tanto para quem muda e para quem que vai receber essa pessoa e também aos que ficam: quem está longe sempre será bem-vindo;
quinto: você (ela) já disse tudo, mas mudar realmente, dizem os entendidos, se bem que já vivi isso (tenho uma filha que mora longe e como eu queria tê-la perto de mim, equivale a cortarem o nosso cortão umbilical de novo;
Pense agora que essa mudança tem um objetivo: novos lugares, pessoas, trabalho. Penso que somos como uma peça de xadrez: ora aqui ora ali, a vida é feita de ciclos e por último "Longe é um lugar que não existe" de Richard Bach.
“Podem os quilômetros separar-nos realmente dos amigos? Se você quer estar com alguém a quem ama, já não está lá?”
bjinhos calorosos de "estar com quem gostaríamos de estar" pra vc georgia e pra menina!

Adriana Alencar disse...

Eu conheço a Gisley e o seu blog e, como já fui também uma "expatriada" posso dizer que concordo em tudo com ela. Nada nos muda mais do que esta experiência, mas acredito piamente que é uma mudança positiva, pois nos torna mais adaptáveis e, portanto, melhores.
Beijo às duas
Adri

Gaspar de Jesus disse...

Gostei de ler e concordo!
A nossa terra será aquela onde nos tratarem melhor...se fosse mais novo, ponderava essa possibilidade.
G.J.

Beth Blue disse...

Olha, a essas alturas do campeonato desconfio que eu esteja mais holandesa do que brasileira, rsrsrs.

Acabei me recriando e sou uma mistura de ambas as culturas. Com o passar dos anos, aprendi que o negócio é tirar o melhor dos dois mundos.

Obrigada pela visita ao meu blog, vou voltar aqui mais vezes!